histórias

Faça este exercício: consegue imaginar o que é viver sem eletricidade? Não tem telemóvel, nem computador, nem televisão. Não há frigorífico nem máquina de lavar roupa. À noite, as ruas não estão cobertas de luz e, em casa, pode contar apenas com a luz trémula das velas ou dos candeeiros a gás, petróleo ou azeite. Consegue mesmo imaginar? Porque só depois, podemos começar a perceber o que significa carregar num interruptor para acender uma lâmpada pela primeira vez.

Poderíamos recorrer a imagens e arquivos antigos para contar a história da eletrificação em Portugal, mas sabemos que a memória de quem a viveu pode ser um recurso infinitamente mais valioso. Ouvimos as histórias de quatro pessoas que trabalharam na indústria da energia nacional, antes e depois do 25 de abril de 1974, e deixamos o seu testemunho, nos próximos parágrafos.

“A cozinha era feita à base da lareira, que se acendia de manhã e que durava até à noite. Também recorrendo ao fogareiro a petróleo. Não havia distribuição de gás na altura. A nossa relação com o mundo exterior era conseguida à custa de um volumoso rádio a válvulas, alimentado por uma bateria que o pai recarregava periodicamente no estaleiro da barragem. Estudar era durante o dia, porque à noite somente à luz da vela ou do candeeiro, também a petróleo, ou de um outro, a acetileno, que produzíamos juntando, no gasómetro deste, água ao carboneto de cálcio, comprado na mercearia local.

Mário Perdigão
Ex-diretor de projetos internacionais da EDP Produção

A cidadela de Cascais como palco de estreia 

A história da eletrificação de Portugal teve muitos avanços e recuos, mas tem início no século XIX.

Quando pensamos no processo de eletrificação do país, rapidamente pensamos na iluminação dentro de casa, mas o primeiro passo deu-se na rua, com a iluminação pública.

O ano em que foram eleitos, pela primeira vez, deputados republicanos na Assembleia Portuguesa (1878) foi também o ano em que se deu a primeira experiência elétrica de que há notícia: a 28 de setembro, em comemoração do 15º aniversário do príncipe D. Carlos, foram acesos candeeiros na esplanada da Cidadela de Cascais. Estes foram oferecidos pela Câmara de Lisboa, e utilizados, de novo, no mês seguinte, na zona do Chiado.

Este evento real foi o pontapé de saída para eletrificar Portugal e os portugueses ficaram entusiasmados com a novidade. Em Lisboa, eram feitas excursões de família para ver os candeeiros que funcionavam a eletricidade e que já não deixavam um cheiro desagradável no ar, ilustrado nas imagens seguintes disponibilizadas pela Hemeroteca Municipal de Lisboa. 

O fascínio pela luz era grande… mas o processo foi demorado

Foi no seu escritório, em Lisboa, que falámos com Francisco Sánchez sobre a história da eletrificação do país. Preparou-se para a nossa conversa recolhendo alguns factos históricos que pareciam já não viver na memória e ajudou-nos a desvendar a história da produção e distribuição de eletricidade como uma sucessão de iniciativas, ora de instituições privadas, ora públicas.

Depois da pompa de acender os primeiros candeeiros em Cascais, o fascínio pela eletricidade continuava a crescer e, no final do século XIX e início do século XX, surgem as primeiras empresas de produção e distribuição de energia elétrica: 

  • 1891 - Companhias Reunidas Gás e Eletricidade (CRGE);
  • 1903 - Construção da Central da Boavista;
  • 1908 - Central do Ouro;
  • 1909 - Construção da Central do Desterro;
  • 1914 - Central Tejo;
  • 1919 - União Elétrica Portuguesa.

Francisco Sánchez explica que “em Lisboa, depois de várias pequenas centrais que foram construídas na cidade, começou a construção da Central Tejo. Começou a ser construída no início da Primeira Grande Guerra, depois foi crescendo sucessivamente até chegar a alimentar os concelhos à volta de Lisboa”.

Mesmo assim, o desenvolvimento económico e social do país parecia não permitir o crescimento da energia elétrica, apesar de o debate sobre a produção de hidroeletricidade conquistar posição. A iluminação a gás perdurou nas ruas de Lisboa até 1965, ano em que foram substituídas as últimas luzes a gás pela eletricidade no Bairro Alto e no Bairro de Santa Catarina.

“Naquela altura, a iluminação pública era uma faceta extremamente importante, pois simplesmente havia muitas populações sem iluminação. A utilização efetiva (da eletricidade) em Portugal começou, depois, por pequenas indústrias, que precisavam de energia elétrica, que compravam os seus próprios geradores e tinham energia adicional, mais do que aquela que precisavam.”

Francisco Sanchéz
Ex-presidente do Conselho de Administração e da Fundação EDP

Lá fora a II Guerra Mundial… Cá dentro o avanço da eletricidade

Recuamos até 1944. A 6 de junho, no Dia D, os aliados invadem a Normandia para libertar França da Alemanha Nazi. Em Portugal, estávamos sob o regime do Estado Novo e o governo de António de Oliveira Salazar tinha-se declarado neutro. Este foi o ano em que o Estado português estabeleceu como prioridade o desenvolvimento de centrais hidroelétricas, com a Lei da Eletrificação.

Apesar de não ter vivido esta época, Mário Perdigão conhece bem esta parte da história. “A minha vida e a vida dos meus familiares mais próximos acabou por ser moldada por aquela que foi designada a Lei da Eletricidade, da autoria do professor engenheiro Ferreira Dias (...) Ditou a forma como o país deveria passar para uma outra fase na questão da eletricidade, quer da produção quer da distribuição.”

Pouco tempo depois, foram constituídas as sociedades Hidro-Elétrica do Zêzere e Hidro-Elétrica do Cávado. Em 1947 é criada a Companhia Nacional de Eletricidade (CNE). “Portanto, Portugal vivia praticamente de energia renovável e estamos novamente a caminhar para isso. A história tem estas trajetórias”, diz-nos sorridentemente, Francisco Sanchéz.

Uma nova identidade social: os "barragistas"


Mário Perdigão entrou na EDP em 1979, mas a sua vida no setor da energia começou muito antes. Recorda-se bem dos seus tempos de meninice nos estaleiros dos centros produtores, onde o seu pai trabalhava. Tinha 5 irmãos e, desde pequeno, mostrou interesse pelos estudos. Como nos estaleiros só tinham escola primária, o seu percurso de estudante passou para o Porto, depois por Penafiel, Peso da Régua, Vila Real e de novo para o Porto, acompanhando a mudança entre estaleiros de construção das barragens do Picote, Bemposta, Carrapatelo, Bagaúste e Pocinho. “Nas férias, a minha vida fazia-se em casa dos meus pais, no estaleiro ou na zona onde eles viviam”.

Como podemos imaginar, as construções das grandes centrais hidroelétricas implicavam a participação de milhares de trabalhadores e uma boa meia dúzia de anos para as completar. Essa multidão de trabalhadores migrantes, que construía barragens em Portugal, fez surgir uma identidade própria: os “barragistas”. O bairro do Barrocal do Douro, que surgiu para o apoio ao aproveitamento hidroelétrico de Picote, é um marco na história destes barragistas. Nos anos 50, a construção das barragens fazia parte do quadro de industrialização do país e significava sempre desenvolvimento económico e social para as diferentes regiões.

Em menos de uma década, a produção de energia passou a representar cerca de um triplo da de 1950 e confirmou-se a predominância da energia de origem hídrica sobre a de origem térmica. E o consumo de energia não parou de crescer. Várias indústrias, câmaras municipais e cidadãos começaram a depender da eletricidade. Por isso, nas décadas seguintes, assistimos à introdução de grupos térmicos de grande dimensão de queima de carvão e de fuelóleo (Tapada Outeiro e Carregado). 

Apesar de ter passado a infância nos estaleiros dos centros produtores, Mário Perdigão preferiu seguir uma carreira na energia térmica. “A termoeletricidade é a última reserva. Se não houver água nas hídricas, vento ou sol e se não houver capacidade de interligação para trazer eletricidade de Espanha para Portugal, as térmicas são a última reserva. É necessário continuar a manter térmicas para que essa reserva esteja disponível quando as outras fontes de energia primária não tenham capacidade para abastecer o país.”, explica.

Durante os anos 90, a energia termoelétrica representava uma grande parcela da produção total de energia em Portugal - cerca de 70%.

De um país livre a um mercado liberalizado

Nas décadas de 50 e 60, o panorama da energia elétrica em Portugal mudou para que a “magia” da lâmpada e do interruptor chegasse a todos. 

Anos 50

O Estado aplicou uma política de planeamento do apoio económico à eletrificação. Através de comparticipações, a que podiam recorrer municípios, federações de municípios e concessionários privados, foram construídas pequenas centrais térmicas, redes de transporte e distribuição de energia e redes de pequena distribuição rural e urbana.

Anos 60

O consumo de energia elétrica continuava a aumentar, o que levou à necessidade de consolidar as infraestruturas, atualizar o inventário dos recursos nacionais de produção hídrica e térmica e de definir o seu aproveitamento. Apesar de parecer que finalmente Portugal estava a finalizar o seu caminho da total eletrificação do país, em 1966, ainda havia muitas freguesias a que a eletricidade não chegava. Foi necessário que o Governo alargasse o apoio à eletrificação rural. 

No final dos anos 60, o Estado determinou a fusão das empresas concessionárias de aproveitamentos hidroelétricos, de empreendimentos termoelétricos e de transporte de energia. Esta concessão global e unificada foi atribuída à Companhia Portuguesa de Eletricidade (CPE). Tornou-se na maior empresa no setor, em Portugal, ao ser responsável por 95% da energia elétrica produzida no país. Deixou de existir quando foi constituída a EDP, em 1976. 

Anos 70 e a eletrificação rural

Em meados dos anos 70, o setor elétrico passou para uma nova fase: a nacionalização. Depois do 25 de Abril de 1974, o conflito social e político predominava no país.

A EDP foi constituída em 1976 e herdou um cenário complexo de desequilíbrio na eletrificação de todo o território. A distribuição de energia elétrica estava concentrada nos grandes centros urbanos, o que levava a que uma parte do país ainda estivesse às escuras. Além disso, era necessário aumentar a capacidade das unidades electroprodutoras.

À medida que a energia elétrica se torna indispensável para várias utilizações, o consumo aumenta cada vez mais e é preciso criar estabilidade. Portugal enfrentava a precariedade industrial, a falta de organização do setor elétrico e as inesperadas crises do petróleo. Não são fatores favoráveis para o desenvolvimento da empresa pública, mas a EDP tinha três grandes objetivos:

  • Eletrificação total do território;
  • Melhoria de qualidade dos serviços prestados;
  • Uniformização tarifária.

Francisco Sanchéz recorda-se bem desses tempos. Afinal de contas, acompanhou a evolução do setor de energia elétrica antes e após a Revolução dos Cravos. “Ficaram, na altura, conhecidas duas grandes operações, na gíria da empresa: Operação Trás-os-Montes e Operação Beira Baixa. Eram zonas particularmente escuras e era importante atacar rapidamente. Eu diria que nos anos 90 o problema estaria resolvido.”

“Para cobrir as necessidades de abastecimento futuras do país era necessário aumentar a produção. Cabia à EDP Produção, dentro da EDP, aumentar a capacidade instalada do parque electroprodutor. Construíram-se então, as centrais a fuel-óleo do Carregado, de Setúbal, de Sines e Pego a carvão. Esta foi, depois, vendida no processo de privatização e abertura do mercado da eletricidade ao setor privado. Com a introdução do gás-natural em Portugal, instalaram-se também as centrais do Ribatejo e de Lares.”, resume Mário Perdigão.

Com os olhos postos no século XXI

Ao entrarmos nos anos 90, são poucos os serviços municipais de fornecimento de eletricidade que não estão na alçada da EDP. A empresa foi ditando um plano de reestruturação económico-financeira, melhorando os métodos e sistemas de gestão e requalificação das estruturas. Nos finais do século passado, já o poder político pensa em avançar com a privatização da EDP. Este foi um processo que demorou vários anos e acaba por acontecer a 14 de fevereiro de 2013. 

Os desafios emergentes do século XXI mostram-se virados para a liberalização do mercado energético, para o esforço de diversificação e para as exigências ambientais com o aproveitamento de energias alternativas. Passamos assim para a utilização do gás natural, das energias eólica, solar e dos mares.

Foi uma longa caminhada… Para onde seguimos?

O futuro é renovável. Assim deverá ser e assim acredita Mário Perdigão. “Tem de ser! Por uma questão de sustentabilidade do próprio ser humano. A energia vai ser cada vez mais procurada. Não é plausível que fontes de energia não renováveis tenham capacidade para absorver as necessidades futuras. Porque as reservas em combustível são finitas, não é possível continuar a apostar no crescimento da produção, tendo por base a energia termoelétrica. Esta funcionará sempre como uma reserva”.

Apesar de também já estar afastado da EDP, Francisco Sánchez, antigo presidente da empresa, mantém uma ideia clara de como poderá ser o futuro: “A EDP é uma empresa de referência também pela caminhada tecnológica que tem feito. Os desafios futuros vão passar pelos 3D da transição energética: a digitalização, a descarbonização e a descentralização”.

A EDP está atenta aos avanços e desafios do futuro da energia elétrica. É hoje líder no setor energético mundial e quer continuar a ser uma empresa diferenciadora, sempre com foco no crescimento. Os objetivos estão traçados e terão sempre em conta a preocupação ambiental, a inovação tecnológica, a preocupação social e, claro, o cliente. Porque, nos dias de hoje, o exercício de nos imaginarmos sem eletricidade é impossível.