Mobilidade elétrica a caminho do futuro

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Mobilidade elétrica a caminho do futuro

Como os veículos elétricos podem impulsionar a aposta em renováveis e ajudar à descarbonização da economia

A mobilidade elétrica tem evidenciado um rápido crescimento no Mundo, tendência que deverá aumentar nos próximos 5 a 10 anos, devido à progressiva redução do custo das baterias e à vontade de toda a sociedade nesse sentido.

A Agência Internacional de Energia estima que existam mais de 56 milhões de veículos elétricos em 2030 no mundo, um número que está alinhado com a meta estabelecida em Paris, na Conference of Parties (COP 21), em dezembro de 2015: manter o aumento da temperatura global abaixo dos 2ºC, face aos níveis pré-industriais. 

A generalização do uso de veículos elétricos poderá contribuir, por um lado, para a redução das emissões de gases com efeito de estufa e, por outro, para o melhor aproveitamento da eletricidade produzida a partir de renováveis, em todas as atividades do nosso dia a dia.
 

Transportes entre os mais poluentes

Na Europa, o sector dos transportes foi o único, de entre os  principais sectores de atividade, a aumentar as emissões de CO2, desde 1990. Os transportes em geral representam hoje 25% das emissões totais destes gases na Europa, sendo os rodoviários os mais poluentes, com 19% do total de emissões.

Para estes valores muito contribui o aumento das deslocações de carro para dentro e fora dos centros urbanos. De facto, os transportes públicos ainda não são considerados suficientemente cómodos nem fiáveis para abandonarmos totalmente o uso do automóvel, mesmo nas cidades mais desenvolvidas do mundo. Em Lisboa, o tempo médio de deslocações em períodos de pico de trânsito aumenta 61% face a períodos de trânsito normal — um valor acima da média Europeia e só ultrapassado nas cidades de Londres, Paris e Roma. 

De forma a atingir as metas do Acordo de Paris, tem de haver um trabalho conjunto dos cidadãos, governos e empresas, rumo a uma descarbonização. E tem vindo a ficar claro que esse caminho se faz lado a lado com o da eletrificação. Em todos os sectores (incluindo o dos transportes), quanto maior for o recurso à energia elétrica, maior será o potencial para recorrer às energias renováveis e deixar os combustíveis fósseis de lado.
 

carros mobilidade eletrica

Vai trocar de carro? Aposte num elétrico.

Por todo o mundo, os países estão a mobilizar-se no sentido da descarbonização. Espera-se que, até 2050, haja uma redução de 80% das emissões de gases com efeito estufa, fomentada pelo alargamento da produção de energia a partir de fontes renováveis.

E os veículos a diesel parecem estar entre os primeiros alvos a abater nesta luta pelo planeta. Cidades como Madrid ou Paris já anunciaram que, até 2025, vão impedir a sua entrada em centros urbanos e a venda de novos veículos com motores de combustão ficará mesmo proibida em 2040. Londres, por outro lado, já prevê uma taxa de 10 libras diárias para quem queira levar veículos que não sejam (pelo menos) híbridos até ao centro da cidade.

Estes números podem ser assustadores para quem comprou recentemente um carro a diesel, por pensar que ainda não “compensa”, a nível de poupança imediata, comprar um elétrico. Mas podemos estar perante um cenário em que, daqui a cerca de 5 anos, não nos seja permitido ir de carro a diesel para a cidade sem o submeter a uma adaptação ao nível do motor.

De facto, estima-se que o ponto de viragem entre os níveis de poupança de um veículo a gasolina e um veículo elétrico se dê por volta de 2022 — a partir de então será oficialmente mais económico utilizar os elétricos. Em 2035, prevê-se que as vendas de elétricos ultrapassem, pela primeira vez, as de veículos a combustível.
 

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Transportes públicos elétricos e automáticos

A descarbonização total da rede de transportes numa cidade implica a colaboração de vários setores, como câmaras municipais ou fornecedores de energia. As cidades de Boston e Paris são exemplos de como os governos podem criar parcerias com empresas no sentido de uma mobilidade mais limpa e inclusiva para todos os cidadãos. 

Em conjunto com o World Economic Forum, o Governo de Boston está a implementar uma rede de veículos totalmente autónomos e elétricos que complemente o restante sistema de mobilidade na cidade.

Por sua vez, Paris desenvolveu um ecossistema de mobilidade — Mobility Nation — elaborado por entidades públicas e privadas, destinado a fomentar a inovação neste campo.

Um aproveitamento ótimo das renováveis

Uma das vantagens menos conhecidas da aposta em mobilidade elétrica é o facto de a mesma poder contribuir para um melhor aproveitamento das energias renováveis. Por vezes, a energia produzida a partir destas fontes, nomeadamente a proveniente do sol e do vento, não consegue ser totalmente aproveitada por não haver consumo suficiente. Como tal, a rede fica “saturada” de energia, o que obriga a limitar a produção — precisamente o que queremos evitar, pois pretende-se um aproveitamento ótimo e máximo de fontes de energia limpa.

A generalização do uso de veículos elétricos pode ajudar a resolver esta limitação: seja ao nível local, usando soluções inteligentes para acelerar o consumo dos carregadores de veículos elétricos, em alturas com muito sol, seja ao nível global do sistema, uma vez que, muitas vezes, os veículos elétricos carregam durante a noite, ou seja, quando há menos consumo e mais energia eólica, evitando assim o desperdício de recursos renováveis.

Os hábitos de carregamento automóvel terão, naturalmente, impactos e trazem novos desafios na forma como a rede elétrica está organizada, já que irão produzir picos de procura maiores dos que observamos até aos dias de hoje, nomeadamente ao final do dia. 

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Legenda:
Em Portugal, 90% dos carregamentos de veículos elétricos ocorrem em casa ou no local de trabalho. Os restantes 10% são carregamentos em locais públicos como centros comerciais, parques de estacionamento ou estações de carregamento rápido.
 

Impactos na rede elétrica

A rede de baixa tensão nas áreas urbanas é a que tem maior probabilidade de ser impactada por estas mudanças de hábitos de consumo. Atualmente, uma área residencial urbana média, com cerca de 250 habitações, é abastecida por uma subestação de 250kVA, tendo o seu pico de consumo nos 180kVA entre as 18h00 e as 23h00. 

Se juntarmos a esses hábitos de consumo o carregamento de 60 veículos elétricos durante a noite, estaremos perante um pico de consumo duas vezes superior, com cerca de 360kVA a serem exigidos à rede entre o mesmo período. Na prática, isto implicaria a necessidade de quadruplicar a potência instalada na subestação, para garantir um fornecimento elétrico sem falhas.

Como poderemos então contornar essa necessidade, que possivelmente implicaria um maior custo e recurso a energias não-renováveis? A resposta passa por implementar soluções de Smart Charging e Vehicle to Grid. 

O Smart Charging, como o nome indica, é o carregamento inteligente. Este passa por ter um carregamento de veículos capaz de responder às necessidades de carregamento “on demand” e minimizar a simultaneidade com os nossos eletrodomésticos e outras cargas. Dessa forma, minimizamos os custos associados. 

Por sua vez, o Vehicle to Grid diz respeito à possibilidade de os veículos devolverem energia à rede, fazendo, também, um melhor aproveitamento das renováveis. Por exemplo, com o aumento da capacidade renovável eólica, é frequente durante a noite haver produção elétrica superior à procura. Com a adoção de estratégias Vehicle to Grid, os veículos elétricos poderão abastecer-se de energia durante a noite e, nos períodos de grande procura energética em que estejam estacionados, devolver à rede a energia acumulada — garantindo assim um aproveitamento ótimo da energia eólica e libertando a rede da necessidade de recorrer à produção proveniente de fontes não renováveis.

Por este motivo, a mobilidade elétrica no futuro poderá servir para ajudar a gerir a rede de forma mais eficaz, incentivar a microprodução de energia e integrar maior quantidade de eletricidade produzida através das renováveis.