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Reabilitação de barragens: uma tarefa para gigantes

A manutenção ou reparação de uma barragem é uma obra complexa, que conta com a intervenção de vários profissionais especializados. Além do esforço da obra em si, existem riscos — para as pessoas e para o ambiente — que têm de ser acautelados. São raros os casos em que é necessário recorrer ao esvaziamento da albufeira para reparar uma barragem, mas quando se torna indispensável, como se processa?

O esvaziamento de albufeiras só acontece, em geral, nas alturas em que os caudais estão mais reduzidos, o que em Portugal acontece durante a época de verão. Isto acaba por se tornar uma preocupação para os locais da zona onde a obra está inserida porque as  albufeiras, para além de embelezarem a paisagem, permitem a realização de uma série de atividades que trazem valor económico à região em que a barragem se encontra. Com o seu esvaziamento, estas atividades ficam, temporariamente, comprometidas.

No entanto, a segurança está acima de tudo e a EDP Produção, empresa do Grupo EDP que gere a produção de energia, em Portugal, tem de estar sempre “de olho” nas 59 centrais hidroelétricas que explora. Como tal, haverá alturas em que as reparações têm obrigatoriamente de acontecer. Nesse caso, são tomadas as medidas necessárias para a realização, tão rápida quanto possível, da intervenção em causa, de modo a minimizar os incómodos associados à mesma.

 

“Tirar a tampa” à albufeira

Depois de um banho de imersão, conseguimos esvaziar a banheira lá de casa com um gesto simples: tiramos a tampa do ralo e rapidamente a água desaparece. Ora, no caso de uma albufeira, podemos pensar de forma semelhante, mas a saída da água tem de ocorrer de forma graduale ser muito bem controlada.

A água sai da albufeira através da descarga de fundo da barragem e desloca-se para jusante. Parece fácil? Talvez, mas se a água não passa pelas turbinas da central, então não produz energia. Diz a voz da experiência de Ilídio Ferreira, responsável pela área de Segurança de Estruturas da EDP Produção, que “quando se baixa o nível, tenta-se turbinar o mais possível os caudais, para produzir energia. Só para níveis muito baixos é que ela não pode passar pelas turbinas e aí, o esvaziamento é efetuado pela descarga de fundo”.

Passando pelas turbinas ou não, a água acaba por seguir para o leito do rio situado a jusante e, finalmente, para o mar.

Depois, para se conseguir alcançar a zona da obra e trabalhar em segurança, é necessário ter o fundo do vale seco e é essa a função da “ensecadeira”. Esta é uma estrutura de betão integrada na derivação provisória do rio aquando da construção da barragem que, de forma temporária, permite que o leito do rio fique a seco, facilitando o trabalho de reabilitação.

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Apesar de relativamente simples, esta técnica de esvaziamento é eficaz e não tem sofrido alterações ao longo dos anos, mas é preciso ter muita atenção à estabilidade da barragem. A velocidade do esvaziamento pode pôr em risco a segurança da estrutura, pelo que o processo deve ser acompanhado de um plano de monitorização, não só durante o abaixamento do nível de água da albufeira, mas também durante o seu reenchimento.

 

Esvaziar… até certo ponto

Ilídio Ferreira não é novo nestas “andanças”, já que pôde assistir a alguns esvaziamentos ao longo da sua carreira. Afinal de contas, entrou na empresa em 1980. Nas suas palavras, o esvaziamento da albufeira de uma barragem geralmente é efetuado por “questões de segurança estrutural ou hidráulico-operacional, ou ainda para permitir o acesso a zonas habitualmente submersas, para inspeção e/ou realização de reparações.”

Estas são as razões que levam à necessidade de realizar um esvaziamento. Claro que hoje em dia já existem técnicas mais avançadas para aceder à infraestrutura da barragem, sem implicar o esvaziamento total da albufeira. É o caso, por exemplo, do recurso a mergulhadores, que permite chegar a grandes profundidades em reparações subaquáticas. No entanto, o método escolhido em cada intervenção depende sempre das características e dimensões da obra.

Ilídio Ferreira esclarece que o esvaziamento de uma albufeira acontece “de acordo com um plano de abaixamento do nível mínimo de exploração”. Este plano determina até que ponto a EDP pode retirar água da albufeira, algo que está estipulado no contrato de concessão. Se for necessário retirar água de tal maneira que se ultrapassa esse nível mínimo — algo que acontece em caso de esvaziamento — a empresa só poderá avançar mediante autorização prévia da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

 

Impermeabilizar uma barragem

Nada melhor do que usarmos um exemplo concreto para perceber todo o processo do esvaziamento da albufeira e reparação de uma barragem.

No verão de 2019 foi necessário esvaziar a albufeira da barragem da Paradela, situada no Parque Nacional da Peneda-Gerês, no concelho de Montalegre, devido ao aumento das infiltrações na estrutura ao longo do tempo. A EDP teve então de proceder, após obtenção da necessária autorização para o efeito, a um conjunto de obras, no valor de cerca de 4 milhões de euros, para impermeabilizar com uma membrana de PVC o paramento de montante da barragem. Devido à dimensão da reparação e à profundidade a que mesma iria ser efetuada (110 metros), não foi possível utilizar outras técnicas, como o recurso a mergulhadores.

Tendo em vista a minimização de perdas a nível da produção elétrica, o esvaziamento da albufeira foi efetuado através do turbinamento de caudais, complementado pela utilização da descarga de fundo.

Desde 1980 que não era feito um esvaziamento nesta barragem, que entrou em serviço no ano de 1958. A membrana aplicada em 1980 era uma solução que não tinha capacidade suficiente para absorver os esforços decorrentes da pressão de água. Ainda assim, o sistema utilizado foi eficaz durante cerca de 10 anos — naquela altura, era a melhor tecnologia disponível no mercado.

Armando Camelo, da Direção de Engenharia de Barragens (DEB) da EDP Produção, coordenador do projeto de redução dos caudais infiltrados na barragem de Paradela, explica que foi aplicada uma nova membrana em PVC para impedir a formação de pregas nas zonas submersas e deformações excessivas. Este mesmo sistema já tinha sido utilizado em outras obras da EDP. O mais antigo ocorreu há 28 anos, na barragem de Pracana, onde se prevê que a membrana de PVC venha a ser eficaz durante mais cerca de 20 anos.

 

E os ecossistemas?

Quando é necessário fazer a manutenção de um aquário doméstico, ou simplesmente retirar a água para o limpar, temos obviamente de ter muito cuidado com os peixes que ali vivem. É preciso garantir que o aquário continua a ser uma boa casa para os seus hóspedes. O mesmo acontece, a uma escala muito maior, no esvaziamento de uma albufeira.

Para minimizar os impactos ambientais do esvaziamento, todo o processo tem de ser previamente preparado e acompanhado de uma monitorização contínua dos parâmetros físico-químicos da qualidade da água da albufeira e do troço de rio a jusante. Em relação à comunidade de peixes, torna-se necessário efetuar previamente a sua caracterização, seguida de uma vigilância do seu comportamento e das condições ambientais.

Durante o processo, vai-se analisando o comportamento dos peixes existentes e as condições físico-químicas da água. “As decisões são tomadas em função daquilo que se vai detetando no âmbito do acompanhamento”, descreve Teresa Cavaco, técnica superior da Direção de Sustentabilidade (DST) da EDP Produção. Por exemplo, as equipas responsáveis podem mesmo ter de recorrer à captura de alguns exemplares de espécies autóctones que fiquem retidos em bolsas de água. Estes são depois transportados, em tanques com arejadores, para locais específicos dos rios e ribeiras afluentes à albufeira, garantindo a futura recolonização da mesma.

Caso as condições físico-químicas se deteriorem, torna-se igualmente necessário capturar e transportar peixes de espécies nativas para outros locais. Neste contexto, pode ser utilizada a pesca elétrica ou redes de pesca de características específicas, sendo ambos os métodos sempre aplicados por especialistas que trabalham com a EDP.

Na barragem de Paradela, Teresa Cavaco, explica que a obra decorreu sem impactos dignos de registo, por terem sido adotadas as melhores práticas ambientais durante a mesma, designadamente na gestão dos resíduos de tela produzidos e no correto acondicionamento dos sedimentos removidos durante a obra no local previamente aprovado para o efeito. Por outro lado, não foi necessário remover os peixes e deslocá-los para outros locais, pois a albufeira não ficou totalmente vazia e o volume de água retido e a manutenção adequada da sua qualidade permitiram garantir a sobrevivência da fauna piscícola. Para este resultado muito contribuiu a gestão criteriosa do volume de água remanescente.

“Se começássemos a ver que havia uma grande acumulação de peixes ou que durante o período de esvaziamento estes ficavam retidos em zonas isoladas, seria preciso retirá-los e transferi-los para outras ribeiras. Neste caso não foi necessário, mas esses locais foram todos identificados antes de se iniciar a obra”, explica Teresa Cavaco da EDP Produção.

É preciso acompanhar a qualidade da água

Para garantir a sobrevivência da fauna piscícola, a manutenção de uma boa qualidade da água da albufeira e do troço de rio a jusante é essencial. O acompanhamento da qualidade da água tem de estar sempre assegurado, algo que se garante com a monitorização contínua durante os períodos de esvaziamento, obra, reenchimento e pós-obra.

Como responsável pelo acompanhamento ambiental da obra de reabilitação da barragem de Paradela, Teresa Cavaco explica os procedimentos: “foram instaladas boias com sondas multiparamétricas na albufeira e a jusante, de forma a medir vários parâmetros com precisão, tais como a temperatura, o oxigénio dissolvido, o pH ou a turvação. Essa informação foi sempre disponibilizada em tempo real por GPRS”.

A monitorização da qualidade da água foi realizada pela EDP Labelec e o acompanhamento da fauna piscícola pela Equipa do Laboratório de Ecologia Fluvial (LEF) da Universidade de Trás-os-Montes (UTAD).

Além deste controlo, são necessárias outras medidas preventivas durante a obra, tais como ter em atenção os locais onde as telas de PVC e os materiais da obra são guardados. As equipas têm ainda de estar muito atentas ao controlo de derrames de produtos, pois a massa de água que fica retida na albufeira não pode correr risco de contaminação.

 

Voltar a “pôr tampa” na albufeira

Para voltar a encher a banheira basta tapar o ralo com a tampa, abrir a torneira e deixar a água correr até ao nível que se pretende. É aqui que as coisas mudam quando analisamos o reenchimento da albufeira. Dá-se início ao reenchimento a partir do momento em que se fecha a comporta da descarga de fundo — a água começa a ser armazenada na albufeira em função dos caudais afluentes. Por vezes, pedimos também uma ajudinha a São Pedro..

Ilídio Ferreira, EDP Produção, explica que “Não dá para definir o tempo que um reenchimento demora, por causa da precipitação. Havendo precipitação, há mais caudais afluentes e não demora tanto tempo. Se houver pouca, pode demorar muitos meses."

O reenchimento da albufeira da barragem de Paradela começou em 24 de outubro de 2019. Na fase de monitorização foram feitas duas observações por semana para acompanhar o comportamento da barragem. Ao longo dos anos será necessário verificar, com frequência, a eficácia da impermeabilização realizada. Espera-se que dure 20 ou mais anos.

Do lado da proteção da fauna piscícola, a EDP está a monitorizar a evolução das comunidades de peixes e avaliar a necessidade de efetuar algum repovoamento, mas espera-se que não venha a ser necessário porque, nas palavras de Teresa Cavaco, “tivemos uma mortalidade residual de peixes. Em função dos resultados obtidos é que será efetivamente avaliada a necessidade de realizar repovoamento piscícola, não sendo o mesmo expectável nesta fase.”

 

Ao ritmo da natureza

O esvaziamento da albufeira de uma barragem é um processo complexo e demorado, mas por vezes necessário. A EDP compreende a importância da manutenção das suas centrais produtoras, a bem das populações e do meio ambiente. Além disso, as diversas fases do esvaziamento proporcionam aos visitantes um “espetáculo visual” que acompanha lentamente a passagem do tempo. Tanto assim é que as suas vistas magníficas justificam vários passeios ao local.

Assim, se algum dia for ao Gerês e passar pela barragem de Paradela, provavelmente irá ver com outros olhos esta estrutura de 110 metros de altura. Aproveite para conhecer uma pequena praia na albufeira, que fica submersa quando o nível de água sobe, ou para fotografar a paisagem, que estará sempre “vestida a rigor” e pronta a recebê-lo.