As mil e uma funções de uma barragem

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As mil e uma funções de uma barragem

Desde servir para armazenar água a contribuir para minimizar os impactos das cheias, as barragens desempenham funções que a maioria desconhece.

As barragens armazenam água que é utilizada prioritariamente para consumo humano e regadio, além de permitirem a produção de energia com a qual se abastece a rede elétrica. Mas para lá destas funções, os empreendimentos hidroelétricos acabam por servir, de outras formas, as populações e o meio ambiente.

Pôr as barragens ao serviço das populações a diversos níveis, para além da geração elétrica, foi uma tarefa que se desenvolveu ao longo de vários anos, em Portugal. A produção hidroelétrica começou a crescer em força a partir dos anos 50, com a construção de aproveitamentos nas bacias dos rios Cávado, Zêzere, Tejo e Douro. Nessa altura, as operações eram manuais, demoradas e isoladas, estavam a cargo de um grande número de trabalhadores, desde o turbineiro ao maquinista, distribuídos por vários locais (salas de máquinas, turbina, barragem, sala de comando, …).

Essa realidade evoluiu até aos dias de hoje em que a EDP Produção (empresa do Grupo EDP que, em Portugal, explora as barragens para produzir eletricidade) explora atualmente, de forma central e automatizada, 56 centrais hidroelétricas (119 grupos geradores), com um total aproximado de 6,7 GW. Em Portugal, esta gestão faz-se a partir de um só local - o Centro de Telecomando das Centrais Hidroelétricas, onde decorre a operação e monitorização da atividade de todas as barragens e centrais hidroelétricas da EDP Produção.

Este centro de comando, altamente tecnológico, garante uma visão global sobre as diferentes bacias hidrográficas, o que permite uma maior vigilância e controlo sobre as mesmas, nomeadamente em situações de risco para pessoas e bens. É o caso dos períodos de seca ou das cheias.

Barragens ou super-heróis?

Talvez não seja do conhecimento comum, mas as barragens desempenham um papel fundamental na mitigação das consequências de situações extremas para as populações, como é o caso das cheias ou em períodos longos de seca. 

Cada barragem possui diferentes capacidades, isto é, a quantidade de água que conseguem armazenar, normalmente medida em hm3 (hectómetros cúbicos - 1 000 000 m3). Por exemplo, enquanto a albufeira da Régua tem uma capacidade de 95 hm3, a do Baixo Sabor consegue armazenar 1095 hm3. 

Face a essa capacidade de armazenamento, nos contratos de concessão celebrados com as empresas produtoras de eletricidade, como é o caso da EDP Produção, definem-se limites para a exploração de cada uma. Estes limites indicam a quantidade mínima e máxima de água que cada albufeira deve manter armazenada em qualquer altura, independentemente de se estar, ou não, a produzir energia. 

Isto significa que a EDP Produção tem de fazer uma gestão sensata do armazenamento de água em cada albufeira, lado a lado com a Agência Portuguesa do Ambiente - para garantir a produção energética e, simultaneamente, dar resposta às necessidades da população, de acordo com as condições meteorológicas. 

É por isso que se diz que os aproveitamentos hidroelétricos desempenham uma função de “modulação” dos caudais - a quantidade de água que fica retida nas barragens ou que é libertada a jusante do rio varia consoante as necessidades e os riscos.

Minimizar os efeitos das cheias: o exemplo do Lima

Na bacia do rio Lima existem dois aproveitamentos hidroelétricos (Alto Lindoso e Touvedo), inseridos numa região que se caracteriza pela forte pluviosidade. A barragem do Alto Lindoso, com uma capacidade total de 379 hm3 tem um papel importante no controlo das cheias, nomeadamente ao minimizar o impacto nas zonas ribeirinhas a jusante - Ponte da Barca e Ponte de Lima.

Caso se verifiquem elevados níveis de precipitação na bacia intermédia entre o Alto Lindoso e o Touvedo, a grande capacidade de armazenamento da primeira pode até permitir o encaixe total do volume do afluente ao Lindoso. Se tal não for possível, ela pelo menos permite o lançamento controlado de caudais descarregados, minimizando assim os impactos a jusante.

Este processo de gestão de caudais é complexo, mas eficaz - baseia-se, por um lado, na análise das informações meteorológicas e, por outro, numa articulação de esforços entre a EDP Produção, Proteção Civil e o Centro de Previsão e Prevenção de Cheias (no caso do Douro). 

Em caso previsões de maiores afluências, é efetuada a modulação do caudal: põem-se as turbinas das centrais a funcionar antecipadamente para, criar capacidade de encaixe para acolher o máximo de água, efetuando-se assim o amortecimento do pico da cheia.

barragens

Água todo o ano

Em relação às situações de seca, dá-se o inverso. Caso as previsões meteorológicas apontem nesse sentido, a ação da EDP Produção é preventivacondicionar o turbinamento de modo a garantir reservas de água para consumo humano. Se, em situações de muito caudal, o procedimento implica descarregar quando necessário, em situações de seca existe o cuidado de acumular e não usar a água toda da albufeira.

Foi o que aconteceu em 2017, um ano de pouca pluviosidade, o que levou a níveis baixos nas albufeiras. Ainda que fosse possível turbinar nestas alturas, a EDP Produção optou por manter a água acima dos níveis mínimos definidos nos contratos de concessão, tendo mesmo limitado a produção de eletricidade nalguns casos. Dessa forma, foi possível garantir que havia água nas albufeiras para dar resposta a usos prioritários: o consumo diário das populações e o regadio. 

Isto aconteceu em 2017, mas é o procedimento normal em todos os períodos de escassez. Existe sempre o cuidado de não usar toda a água na albufeira e ter alguma de reserva, de modo a satisfazer as utilizações prioritárias.
 

barragem edp

Um elevador para embarcações

No caso do Douro, a introdução de barragens em vários ao longo do rio, que antes era navegável em toda a sua extensão em Portugal, trouxe um desafio: como garantir que as embarcações continuariam a fazer o seu percurso normal, havendo agora uma barragem (e um desnível gigantesco) pelo meio? 

A solução passa por uma obra de engenharia hidráulica impressionante: um autêntico elevador para embarcações. No caso português, existem no rio Douro 5 estruturas deste tipo, destacando-se a existente na barragem do Carrapatelo, com um desnível de 35 metros, o maior da Europa.

Este “elevador” chama-se, na verdade, eclusa. Consiste num compartimento, construído de um dos lados da barragem, para onde as embarcações podem entrar de forma a serem depois transportadas para lá do desnível. 

O compartimento vai-se enchendo progressivamente de água que, como um elevador, vai levando a embarcação até ao topo da barragem. Em seguida, o “elevador” é aberto e o embarcação pode prosseguir viagem, já na zona a montante (logo, a mais alta) da barragem. O trajeto inverso é feito através do esvaziamento da eclusa.
 

elevador barragens
elevador barragens
elevador barragens

… e um “berço” para peixes 

Dado que a construção de barragens implica alterações ao terreno, ecossistemas e até à vida das populações, as entidades que fazem a exploração destes aproveitamentos para produzir energia elétrica, como é o caso da EDP Produção, têm várias preocupações ambientais e sociais.

Em conjunto com as autarquias e populações locais, são definidos planos de intervenção para minorar os efeitos da implantação das barragens, que em muitos casos vão além de simples “medidas compensatórias” - impulsionam a região, revitalizam a flora e fauna locais e trazem melhores condições de vida às populações.

Um exemplo foi a criação de um “berçário” para a nidificação de peixes no rio Sabor.  Com a construção da barragem do Baixo Sabor, a comunidade que habita aquela zona ribeirinha e que ainda vive da pesca viu a sua atividade em risco. Isto porque, após o aparecimento do paredão da barragem, algumas espécies de peixes que tinham grande procura por parte dos restaurantes da zona não conseguiam seguir o seu percurso normal e reproduzir-se.

Na ribeira da Vilariça (concelho de Torre de Moncorvo) foi então criado um sistema de nidificação para estas espécies num lençol de águas limpas. O “berçário” funciona principalmente em anos de seca, em que o caudal da ribeira baixa muito: para compensar esta redução de caudal, bombeia-se água proveniente da barragem do Baixo Sabor.

Desta forma, mantém-se a desova destes peixes no rio, principalmente das Bogas, consideradas autênticas iguarias gastronómicas da região. Esta foi uma das 48 medidas de salvaguarda ambiental postas em curso pela EDP Produção.
 

elevador para peixes barragens

Peixes que sobem escadas?

Além dos “berçários”, existem outras formas de minimizar o efeito-barreira das barragens junto dos peixes, nomeadamente as chamadas “escadas de peixes”. Estes dispositivos permitem a circulação dos peixes entre montante e jusante (e vice-versa) das barragens onde estão instalados. Consistem em escadas, no normal sentido do termo, ou seja, uma série de obstáculos baixos nos quais o rio corre e em que a movimentação das águas chama a atenção dos peixes, levando-os instintivamente a saltar de degrau em degrau. O objetivo? Chegar às águas do outro lado e prosseguir viagem, seja para desovar ou dar continuidade à sua rota migratória. 

A velocidade da água que cai sobre os “degraus” tem de ser suficiente para atrair os peixes, mas não tanta que os leve a desistir e voltar para trás, em vez de continuarem a sua viagem rio acima.

No caso das grandes barragens exploradas pela EDP Produção, não têm escadas de peixes mas contam com outros tipos de passagens, como as eclusas de Borland (nas várias barragens do Douro) e os elevadores (Touvedo), cujo objetivo é permitir que os peixes subam o rio para completar o seu ciclo de vida. Nos casos em que as barragens não estejam equipadas com estes dispositivos, pode também ser feita a transposição manual de peixes.

Estas medidas de compensação ambiental vão ao encontro do compromisso EDP para com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, contribuindo para evitar ou reduzir a perda de biodiversidade, privilegiando uma gestão dinâmica, abrangente, localmente participada e de visão de longo prazo, ambicionando um balanço globalmente positivo.

Fazer obras ou ir a banhos

A EDP Produção recebe pedidos frequentes para a gestão de caudais e de cotas das albufeiras, das mais diversas entidades, para realizar várias atividades nos rios. Por exemplo, pode haver a necessidade de lançar caudal para jusante porque vai haver uma prova náutica, uma procissão religiosa com barcos ou uma travessia do rio. 

Há também casos em que é necessário fazer obras de beneficiação de viadutos, pontes ou realizar inspeções, e é pedido para não lançar caudal (ou ser lançado de forma reduzida) de forma a possibilitar ou facilitar a operação. Foi o que se passou em Torres do Mondego onde, para construir uma travessia pedonal, foi pedido à EDP Produção para não turbinar, de modo a que a obra pudesse ser concluída. 
 

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As barragens são também importantes na criação de condições de funcionamento das praias fluviais: as que estão nas albufeiras e as localizadas a jusante. 

Para garantir condições para a existência de praias que se encontram nas albufeiras propriamente ditas, durante o verão a EDP Produção procura manter essas albufeiras em cotas compatíveis com o usufruto das praias. 

Já nas praias a jusante das albufeiras, existe a preocupação de não lançar caudais muito elevados. No rio Vouga ou no Cávado, por exemplo, o caudal é limitado por uma questão de segurança, isto é, tem de haver algum caudal para que a praia exista, mas ele deve ser modulado de forma gradual e lenta, sempre com a segurança dos banhistas em primeiro lugar. 
 

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E a produção de energia?

Na gestão das albufeiras, a prioridade é o armazenamento de água para consumo humano e para a irrigação, só depois vem a produção de energia. Neste âmbito, além de ajudarem a reduzir a dependência do exterior, as barragens têm duas principais vantagens em termos de gestão energética: por um lado, injetam energia renovável nas redes elétricas e por outro, aproveitam períodos em que a produção de energia seja excedentária face ao consumo, para potenciar a produção de ainda mais energia limpa. Como?

Nas centrais equipadas com máquinas reversíveis é possível usar a energia excedentária através da bombagem: a energia que não esteja a ser utilizada na rede, pelos consumidores, é aproveitada para mover as turbinas no sentido inverso e assim voltar a encher as albufeiras de água. Essa ficará armazenada até haver um novo aumento do consumo elétrico que justifique a sua entrada em funcionamento. 

Há “mil e uma” maneiras de pôr as barragens ao serviço das populações e do ambiente em Portugal. 

Os aproveitamentos hidroelétricos são uma fonte de energia renovável, limpa e que não produz agentes poluentes, contribuindo por isso para que Portugal atinja os seus compromissos ambientais internacionais e sendo cada vez mais uma aposta sólida para a produção de energia elétrica em todo o mundo.